terça-feira, 15 de setembro de 2009

O Bullying e a falta de empatia

Outro dia, em sala de aula, aconteceu um fato que chamou a minha atenção para um assunto muito comentado recentemente: o “bullying”. Para quem não sabe, este é um termo em inglês que, fazendo referência ao "bully" (valentão) e seu comportamento agressivo, designa alunos que, demonstrando o mesmo tipo de atitudes, intimida e agride – verbal ou fisicamente – os seus colegas de escola.

O acontecido foi o seguinte: em uma das minhas turmas há um menino, obeso e bem alto – extremamente simpático e educado, o qual chamarei de Marco – que vivia, ao contrário do esperado, xingando seus colegas, interrompendo as aulas. Várias vezes, chamei-lhe a atenção. Ele sempre se desculpava e calava-se.

Isto sempre me intrigava, já que tal comportamento parecia díspar em relação à sua personalidade – mas ele jamais comentou absolutamente nada.

Lá pela terceira aula em que isto aconteceu, uma pessoa, outro aluno, amigo dele, procurou-me fora da sala, em particular. Disse-me que o tal aluno apenas estourava porque os demais o irritavam a ponto dele explodir, fazendo piadinhas com relação ao seu peso e tudo o mais que eles pudessem mencionar de maneira pejorativa. Disse-me ainda que eles o faziam de propósito, em todas as aulas, e que ele, mesmo tentando, não conseguia conter-se.

Agradeci a este aluno, pela atenção com o colega e pela confiança e pus-me a refletir sobre como poderia solucionar esta questão.

Logo percebi que, a primeira hipótese a surgir ao se pensar na situação é que Marco reagia infantilmente. Que era inocente ao não perceber que seus colegas zombavam dele apenas porque sabiam que ele iria acabar esbravejando e sendo repreendido pelo professor presente em sala.

Mas, o que pensei imediatamente após elaborar esta primeira teoria foi que é muito simples julga-lo “o inocente” e “o despreparado” transformando-o de vítima em culpado. Seria o mesmo que dizer que a mulher violentada carrega qualquer culpa pela violência sofrida por, por exemplo, usar roupas curtas, eximindo, mesmo que parcialmente, o autor da violência de culpa – como se o violentador fosse um animal guiado pelo instinto e não um humano dotado de raciocínio.

Alguns dirão que a comparação é exagerada. Bem, discordo. Obviamente, que as marcas traumáticas causadas por uma violação sexual – sejam elas físicas ou psicológicas - serão duradouras, sendo que das segundas, pode ser que a vítima jamais se recupere.

Entretanto, quando se fala de violência moral, de agressões verbais, também se fala de algo que deixa marcas perenes: especialmente quando os envolvidos estão em plena fase de desenvolvimento, ainda terminando de moldar a forma como encaram a si mesmos e ao mundo.

Isto significa que, para Marco, não existiam marcas físicas a exibir para comprovar a violação, mas as marcas internas causadas por repetidos abusos morais, bem, estas, apenas ele poderia dizer o quanto doíam ou incomodavam – e não cabe a mim ou a qualquer outra pessoa classificá-las de infantilidade ou exagero.

Cheguei a esta conclusão pensando na empatia, sentimento este que sempre procuro enfatizar por tornar as relações sociais mais amenas e mais fáceis. E foi ainda em cima da empatia que embasei toda a minha argumentação para conversar com a sala.

Assim, na aula seguinte, comecei com uma prosa. Iniciei dizendo que sempre me perguntava por que Marco parecia tão impaciente às vezes e, ao mesmo tempo, não se queixava de nada. Disse ainda, que, um aluno da sala, se sentindo condoído pelo colega, havia me procurado e, sem mencionar nomes e nem ser específico, havia me dito das brincadeiras que irritavam tanto o rapaz em questão.

Eles tiveram a reação esperada: começaram dizendo que se tratavam de brincadeiras inocentes, não feitas com o objetivo de ofender ou intimidar. A princípio, concordei com eles: “Puxa, realmente é uma infantilidade se ofender assim, né?...” Dei bastante espaço para eles se pronunciarem, justificando-se. Aí, sapequei a pergunta: “Mas, e se essas “brincadeiras” fossem feitas com seu irmão, sua mãe ou com você? Como você se sentiria no direito de reagir? Ainda assim, as consideraria inofensivas?”

Tudo bem que eu aprendi isto com Samuel e o Rei Davi, no caso das ovelhas (metáfora para uma mulher casada, a qual o soberano havia usado de sua influência para conquistar), lá no velho testamento. Segundo a argumentação ali, conta-se o caso e inverte-se a situação para que a pessoa possa colocar-se no lugar da ofendida, percebendo seu erro.

Como no velho testamento, funcionou perfeitamente. Toda a argumentação em defesa dos “brincalhões”, que na verdade praticavam uma das formas de bullying, caiu por terra e eles comprometeram-se a não repetir as tais brincadeiras.

Marco, a princípio, sentiu-se um pouco intimidado quando comecei a falar, especialmente quando parecia que eu também achava as brincadeiras inofensivas. Entretanto, sua expressão de alívio fez valer a pena toda a conversa e vinte minutos de aula gastos levando a galerinha a raciocinar e a repensar suas atitudes. Ainda, me desculpei com ele por não tê-lo procurado antes para saber se havia algo de errado.

Ele, por sua vez, conversou comigo depois da aula para me agradecer por tê-los feitos ver os acontecimentos na pele dele, em seu lugar.

É claro, que ao final de minha fala, deixei bem claro que não admitiria a repetição de tal comportamento: nem contra Marco ou qualquer outro – e eles entenderam bem o recado, já que, mesmo depois de algumas semanas, não vi este tipo de episódio repetir-se.

Porém, posso dizer, que minha reflexão sobre estes acontecimentos ainda permanece. É interessante perceber como que, se perguntados, todos são contra o bullying em todas as suas formas. Mas, ao mesmo tempo, são incapazes de perceber que algumas de suas práticas estão intrinsecamente ligadas a ele: não é preciso bater em alguém ou tomar seu lanche, ou trancá-lo no armário – como se vê em filmes americanos - para que se seja praticante deste comportamento deplorável.

É o mesmo que dizer que para se ser classificado como racista, precisa-se, frontalmente, agredir a alguém de cor diferente da nossa. Que as piadinhas ou “brincadeirinhas” vexatórias ‘não têm nada a ver’.

Para se ser um “bully” ou um preconceituoso, basta que se use de qualquer forma de violência para agredir ao colega. Não importa se esta é verbal ou física.

Mesmo pensando semanas seguidas sobre este assunto, é interessante perceber como sempre chego à mesma conclusão: tudo seria bem mais simples se todos se utilizassem da empatia - ficaria bem mais fácil julgar o que é ou não ofensivo ao nos colocarmos no lugar do outro.

(Tudo bem! Sei que empatia rima com utopia, mas não custa tentar... Alguém ainda vai me ouvir, como espero que aqueles meus aluninhos tenham me ouvido. Como disse, não custa tentar ).

5 comentários:

Rita de Cássia disse...

É interessante pensar como é fácil
sempre atribuir ao outro, algo que
nos incomoda. Se eu tenho um defeito,
muito mais fácil achar alguém a quem
atribuí-lo, do que assumí-lo, isto
desde criancinha.

Rita de Cássia - Psicóloga

Dri Viaro disse...

oi, passei pra conhecer seu blog, e desejar bom dia
bjsss

aguardo sua visita :)

ScoobyUSA disse...

Aqui nos EUA a maioria dos casos de assassinatos dentro das escolas estão relacionados ao bullying...são os verdadeiros excluídos que numa determinada hora partem pra suposta " vingança " não enxergando que com isso acabam sentenciando um triste destino.......cabe aos pais e professores monitorarem melhor isso, mas infelizmente aqui o sofrimento deles passa despercebido.......

Érica Araújo Castro disse...

É verdade, me esforço sempre para perceber e observar meus alunos - mas às vezes, é muito difícil enxergar o bullying, pois este nem sempre é facilmente detectável. O sofrimento que causa, entretanto pode ser bem intenso...

Érica Araújo Castro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
 
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