segunda-feira, 31 de agosto de 2009

PRECONCEITO SE APRENDE EM CASA, NA ESCOLA...

Semana passada, ainda no jornal da manhã, vi um fato, acontecido no estacionamento do Carrefour (São Paulo), que, mais uma vez, me fez refletir sobre a questão da discriminação de cor que existe no Brasil.

Preconceito de cor, sim. Recuso-me a usar a palavra raça – já que creio que todos nós, homo sapiens, mesmo que de origens e etnias diferentes, pertençamos à mesma raça: a humana e, como tais, somos detentores dos mesmos direitos e obrigações.

É claro que, sempre existirão aqueles que, em prol de defender seus conceitos e vantagens, sob forma de indenização procrastinada sobre males históricos, defenderão o conceito de raça negra, raça branca, raça amarela, raça indígena, raça dominante, raça subjugada, etc., tentando separar aqueles que são sofredores ou não, injustiçados ou não. Como se, em um país multicolor como o Brasil, fosse possível separar aqueles que descendem de tal ou tal etnia pela sua aparência, ou pela aparência de seus descendentes.

Mas, o fato reportado no jornal foi o seguinte: seguranças do mencionado supermercado espancarem um cidadão, da cor preta, no estacionamento, por concluírem que o mesmo estava roubando seu próprio carro.

Eu, ainda deitada e cochilando, imediatamente despertei e comecei a prestar atenção. Assuntos assim me interessam sobremaneira já que, como pertenço, pelo lado materno, a uma família de negros, (evocando conceitos de raça segundo preferem alguns, em vez da terminologia oficial pretos, que se refere somente à cor da pele), cheguei a presenciar o preconceito em diversas ocasiões.

A primeira de todas, e a que considero mais relevante, por ter me feito refletir, tendo acontecido há muitos anos, eu ainda menina. Meu pai havia comprado uma cota em um clube, no bairro Serra Verde, próximo à casa de minha avó Hilda, a mãe de minha mãe. Ele procurou saber quais os procedimentos que seriam necessários para que levássemos dois convidados – minha avó e minha tia, que era da minha idade.

Todas as exigências cumpridas, seguimos todos para o clube – meus pais, minha irmã e eu, além de minha avó e minha tia.

Ao parar na portaria, meu pai foi discretamente chamado para a gerência, enquanto aguardávamos do lado de fora, antes da cancela. Ele demorou-se alguns minutos e depois saiu, de cara séria e levou-nos embora.

Ficamos todos sem entender, já que ele não mencionou o que haveria acontecido.

Seguimos para a casa da vovó e lá, eles nos mandaram – éramos crianças – brincar no quarto, enquanto discutiam algo na sala. Obviamente, que curiosa como eu estava, dei um jeito de ficar ouvindo o que falavam, sem ser percebida. Sei que isto é horrível, mas vai explicar isto para uma criança de cerca de 8 anos cujo passeio ao clube fora frustrado sem explicações!

Ouvi meu pai, que não é caucasiano, mas é considerado branco para os padrões brasileiros, explicar à minha mãe e minha avó que a entrada dela e de minha tia havia sido barrada devido à cor da pele delas – eram pretas.

Sinceramente falando, eu jamais havia me dado conta disto: minha avó, minha tia, meus dois tios - irmãos de minha mãe - meus tios-avôs e tias-avós - irmãos de minha avó - e todos os meus primos eram pretos; alguns mais claros, como a Camila Pitanga, outros mais escuros, como o Grande Otelo, mas todos pretos.

Eu jamais percebera, ao longo da minha vidinha de 8 anos, de que havia algo de diferente entre esta parte da minha família e a outra, do meu pai, que era branca (obviamente que para os padrões brasileiros, o qual difere das definições utilizadas mundo afora para caucasiano).

Sendo assim, do mesmo jeito que eu gostava da minha avó que acabara de descobrir que era preta – e ainda amo - eu gostava da minha avó branca, a Luíza, que já faleceu há alguns anos. Amava e respeitava aos meus tios e tias da mesma maneira, brincava com todos os primos do mesmo jeito – nem eu, nem minha irmã, fomos ensinadas a ver ou fazer diferença entre as pessoas devido à cor de sua pele. Fomos ensinadas a amar e respeitar aos nossos e aos outros - e ponto final.

A questão da cor da pele jamais havia sido discutida ou mencionada como sendo algo que fizesse parte de qualquer decisão que tivéssemos que tomar ou de qualquer sentimento que fôssemos desenvolver por alguém.

Tanto foi assim que, apenas naquele momento, eu percebi que aquele “negócio” de pretos e brancos, do qual eu ouvira falar na escola, referia-se também à minha família e, consequentemente, a mim – que apesar de ter uma cor classificada como branca por muitos, não sou caucasiana.

E posso dizer que fiquei com raiva. Muita raiva. Raiva das pessoas que haviam impedido o nosso passeio por fazerem uma diferença entre seres-humanos, diferença esta que, em minha sabedoria infantil, eu sabia que não havia. Raiva por ter visto minha avó receber a notícia com tristeza e abatimento.

O sentimento foi tão forte que, até hoje, quando falo do assunto, sinto a mesma efervescência interna – raiva como apenas as crianças são capazes de sentir.

Desde então, tudo que se refere ao preconceito de cor, considero ser de meu interesse: acompanho bem de perto. E continuo a me chocar com a forma com que as pessoas tratam seus iguais.

Daquele momento em diante, comecei a observar como este mal social está enraizado em nossa sociedade – onde se dizer que se é preconceituoso é ofensivo e inaceitável. É crime passível de prisão, inclusive.

Mas, onde também se contam piadas que envolvem pessoas pretas, em situações vexatórias, e se ri delas sem a menor cerimônia. Onde pessoas que fazem a segurança de um local público sentem-se no direito de espancar outra porque um carro, pago à custa de muito trabalho, não pode pertencer a alguém preto e de aparência simples.

Observei também, ao longo de meus anos como aluna, a maneira pela qual, apesar de pertencer a um país onde a mistura de etnias e cores é a regra histórica e não a exceção, a nossa história é branca. É o que se vê nos nossos livros.

Em épocas em que a internet não existia e a fonte maior de pesquisa era a Barsa, interpelei meus professores diversas vezes quanto a se não havia pretos que participaram ativamente da construção de nosso país, de nossa história. A resposta era sempre a mesma: “Claro que sim: Zumbi e Xica da Silva”. Mas só eles? - era o que eu me perguntava.

A medida em que fui crescendo, a temática do preconceito começou a ser mais discutida socialmente e a informação tornou-se menos difícil, comecei a procurar por mim mesma as minhas respostas. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que alguns de nossos nomes da literatura eram mulatos. Nomes de peso como o de Machado de Assis.

Descobri ainda, mencionando apenas algumas figuras, pessoas relevantes como Luiz Gonzaga Pinto da Gama, João Cândido Felisberto, Abdias do Nascimento. O primeiro, jurista e jornalista que, em épocas de escravidão, utilizava-se de meios legais para garantir a liberdade de escravos. O segundo, em épocas em que legalmente a escravidão já era extinta, lutou contra os castigos corporais na Marinha brasileira na chamada de Revolta da Chibata. Já Abdias é um nome influente na atualidade defendendo o respeito ao povo preto, negro como ele prefere, e a sua inclusão social através de políticas de proteção, como as cotas em universidades.

Segundo meus argumentos já devem ter deixado claro, sou contra as tais cotas oferecidas àqueles de determinada cor – já que, meramente a cor não faz com que o indivíduo seja necessitado de auxílio ou seja incapaz de conseguir sucesso por méritos próprios. Defendo, antes, que a proteção do Estado seja dada a todos os que dela necessitam por encontrarem-se em desvantagem social – ou seja, a todos os pobres, independentemente de sua cor ou ascendência. Mas, porque discordo de pontos defendidos por aquele poeta, ator e ativista, não quer dizer que ele não exista!

Desta forma, hoje, como adulta, tendo refletido muito sobre aquele primeiro acontecimento de preconceito que eu presenciei, me informar e ler, posso entender que preconceito, não se nasce com ele – se aprende, ou não. Em minha família, por exemplo, não o aprendemos.

Porém, a temeridade que percebo é que, mesmo não tendo aprendido o preconceito em casa, eu também poderia tê-lo aprendido na escola ou no convívio com outros.

Na escola, sim, pois como explicar o fato de que inexistem nos livros personagens relevantes advindos das principais etnias – branca, preta ou indígena? Fica implícita, a meu ver, a conclusão de que pretos e indígenas não colaboraram historicamente por incapacidade. De que outra forma sua ausência poderia ser entendida por aqueles que não se deram ao trabalho de pesquisar e saber que eles existiram e que estão meramente omitidos ou citados de passagem?

Sendo assim, entendo como sendo não apenas meu dever, como educadora, mas o de toda uma sociedade ensinar a seus filhos que discriminação de qualquer espécie – cor, sexo, religião, orientação sexual, posição social – é vergonhosa e criminosa.

E que, principalmente em nosso país, não somos nem pretos, nem brancos, nem amarelos, nem indígenas – somos todos brasileiros, descendentes diretos ou indiretos de várias etnias e que, por isso, devemos aceitar e respeitar a todas, já que todas compõem a nossa ascendência e a nossa história. Em nosso DNA estão presentes tanto os violinos europeus quanto os tambores africanos e ameríndios.

Apenas com esta compreensão teremos, enfim, a consciência de povo, enquanto nação brasileira, orgulhosamente multicolor.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Sádico, violento e odioso

Publicado na 102ª edição do jornal "Conhece-te a ti mesmo".

Este mês prosearemos sobre uma das obras de Donatien Alphonse François, o Marquês de Sade – ele mesmo: aquele que deu origem ao nome Sadismo que se refere a um transtorno de ordem sexual.

Quando se lê Os 120 dias de Sodoma entende-se exatamente porque o nome de seu autor foi usado para nomear esta perversão: este livro é a epítome do horror sexual.

Na introdução do livro, após uma pequena contextualização histórica onde Sade explicita a situação da França à época de Luis XIV – tesouro e povo exauridos – somos apresentados às protagonistas: figuras poderosas, influentes e muito ricas estando acima de qualquer possibilidade de justiça – o que é primordial tendo em vista os acontecimentos que se desenrolarão ao longo do enredo. São eles: o Duque de Blangis e seu irmão o Bispo de X (que, por questões de verossimilhança tem seu nome ocultado), Durcet e o PRESIDENT Curval.

Estes homens, já de início, nos são mostrados como amorais e como tendo experimentado todos os vícios possíveis a milionários de desejos incomuns. Para que se tenha uma idéia da percepção alterada destes homens, eles combinam casarem-se, cada qual com a filha do outro – cada pai deixando bem claro já ter cometido incesto com suas respectivas filhas. E mais, o desejo explicitamente revelado de cada um deles é: ao casar-se com a filha do amigo e comparsa para fazer dela uma escrava que execute todos os seus desejos e desígnios, já que, como esposas, as moças estariam presas a laços sociais e legais que protegiam maridos em detrimento de seus cônjuges. Ainda, segundo acordo mantido entre eles, cada pai continuaria tendo acesso sexual a sua filha, já que eles fariam um rodízio de esposas.
Além delas, em suas orgias, não havia limite mínimo ou máximo de idade, classe social, sexo ou situação.

Resumidamente, não possuíam preferência, exceto o excesso.

Ainda no começo do livro, cansados de Paris, arquitetam um plano macabro segundo o qual ficariam enclausurados em um castelo com pessoas escolhidas e, em sua maioria, seqüestradas por seus asseclas. Dentre estes, há quatro idosas, oito homens (cuja exigência é que tivessem um membro de tamanho descomunal), quatro prostituas experientes que contariam histórias vividas por elas, oito meninos, oito meninas e as quatro esposas. Contando com os funcionários e as quatro personagens principais, estariam no castelo quarenta e seis pessoas.

É interessante dizer que destes, ao final dos cento e vinte dias de orgia, depravação e torturas, apenas dezesseis, contando com os quatro protagonistas, sobreviveriam para voltar à Paris.

Ao longo destes dias no castelo, Sade expõe toda a sua maestria em dominar a expressão ao descrever em pormenores os corpos e acontecimentos: ora tem-se a imagem angelical – quando, por exemplo, ele descreve Augustine, uma das adolescentes sequestradas – ora tem-se imagens degradadas e que causam asco (por falta de palavra mais forte) – como quando ele descreve Curval e o seu ânus.

Porém, ao chegar aos capítulos finais, Sade muda radicalmente a forma do livro: deixa de descrever em detalhes as situações passando a contar as torturas sob forma de apontamentos. Ao lê-los, tive a impressão que ou ele não conseguiu concluir seu manuscrito da forma como desejaria deixando de expandir as idéias, ou ele mesmo cansou-se de tanta vilania.

Ao longo do livro, o autor promove uma inversão de valores morais, éticos e religiosos, pois, ao passo que descreve os crimes desprezíveis que suas personagens cometem para satisfazer desejos sexuais - incesto, pedofilia, COPOFAGIA, estupro, tortura, assassinato – ele os classifica como “nossos heróis” dando, até mesmo, uma aura de comicidade a determinados eventos chocantes.

Também questiona a aparente inépcia de Deus e da Igreja em cuidar de questões terrenas, já que Constance, uma das esposas e muito temente a Deus, é insistentemente torturada e confrontada com a falta de ação deste Deus a quem ela tanto adora e recorre. Isto é reforçado pela presença do Bispo que promove casamentos homossexuais em uma espécie de pantomima onde os mestres casam-se com meninos travestidos; ou vestidos com roupas femininas casam-se com homens. O próprio Bispo é homossexual: quando passivo gosta de homens másculos e bem dotados. Quando ativo, prefere menininhos – o que nos remete a problemas tão atuais quanto a pedofilia no âmbito da Igreja Católica.

Observa-se ainda que, à maneira medieval, Sade usa seus personagens como referência à classe de pessoas, não indivíduos, sempre grafando com letras maiúsculas suas funções e usando-as mais que os nomes próprios dos mesmos. Este recurso foi largamente utilizado por Gil Vicente em seu teatro, por exemplo.
Sendo assim, têm-se ali os estereótipos do político (Curval), do religioso (Bispo), do bon-vivant (Durcet) e do aristocrata (Duque). Todos corruptos, cruéis e milionários.

Deve-se ainda lembrar que, ao escrever este livro considerado sua obra-prima, Sade estava encarcerado na Bastilha. Ele constituía um embaraço para os altos círculos políticos, religiosos e sociais da França com seus escritos e comportamento devasso. Porém era admirado e lido pelo “povo”, como continua sendo até hoje. Na França, estuda-se Sade no ensino médio.

Estando, pois, na prisão política mais famosa da França, impedido de comunicar-se, restava-lhe o poder de sua pena. Desta forma, ao levar sua imaginação ao auge do horror sexual, era como se ele afirmasse: “Podes encarcerar-me, mas minha mente é livre. Sendo livre, choco-vos o quanto quero.”

Quando da quebra da Bastilha, este manuscrito foi esquecido, tendo sido publicado apenas em 1935.

Devido ao seu conteúdo absolutamente perverso, ele já foi até mesmo difícil de ser encontrado em português. Anos atrás, quando adquiri o meu tive de importá-lo em inglês. Atualmente, é possível encontrar edições com facilidade em nossa língua.
Confesso que o li apenas uma vez, tendo comprado por absoluta curiosidade – sempre gostei de ler Sade me divertindo com sua mente perversa.

Apesar de sua estética e tessitura textual absolutamente talentosa, Os 120 dias de Sodoma possui passagens que pesam, de fato, o coração de alguém fruto da sociedade moderna ocidental – como a descrição pormenorizada dos estupros das crianças e adolescentes, das fantasias escatológicas e/ou assassinas. Ao terminar a leitura do meu exemplar, o escondi no fundo de uma gaveta – a simples visão dele me angustiava, tais os horrores descritos.

Porém, sempre lembro àqueles que o leram e mostram-se chocados, que é importante notar que Sade apenas imaginou as perversões ali descritas. De acordo com o conhecimento que possuímos de sua vida, o sadismo não era levado por ele aos extremos do livro.

Entretanto, o que realmente me atemoriza é o conhecimento de que, ao passo que existiu alguém capaz de imaginar, existirá sempre alguém capaz de executar. Basta ler os noticiários e ver que tenho razão.
O
bviamente, esta não é uma obra que eu recomendo àqueles que possuam entes queridos desaparecidos, mas, certamente, é um livro interessantíssimo para aqueles que se perguntam até onde a mente humana é capaz de chegar.

Mas apenas se aventure se você possuir estômago para tanto.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Gripe Suína em Conselheiro Lafaiete

É interessante a forma como os meios de comunicação em massa de Lafaiete não divulgam informações sobre a Gripe A na cidade. Durante algum tempo, teve-se, devido a isto, a impressão de que vivia-se em um oásis em que a doença não havia ainda chegado.

Entretanto, conversando com pessoas que possuem informações privilegiadas por terem conexão - direta ou indireta - com os maiores hospitais da Cidade, qual não foi minha surpresa ao ser informada de que há, inclusive óbitos devido a nova gripe em nosso município, enquanto que outras pessoas, infectadas, foram transferidas para outras cidades - Barbacena e Belo Horizonte - devido à falta de leitos nos hospitais da região.

E a população segue desinformada.

sábado, 15 de agosto de 2009

Estado Ateu ou Estado Laico: sobre a geléia geral feita destes conceitos

Esta semana saiu na edição do Correio da Cidade, um dos principais jornais da cidade de Conselheiro Lafaiete, comentário de um articulista referente ao pedido de liminar feito pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão, do estado de São Paulo. Tal liminar determinaria que todas as imagens e símbolos religiosos em exposição em repartições públicas federais do país fossem retirados.

A opinião do referido articulista me surpreendeu – de acordo com o mesmo, a retirada de tais símbolos ofenderia a fé dos brasileiros, os quais se reconhecem como cristãos. Ele ainda parte para a acusação afirmando que este pedido só pode ter sido feito por pessoas que “temem” ao Deus cristão e aos seus olhos acusadores – já que os símbolos em exposição seriam, segundo o próprio colunista, representações que remetem ao Cristo e à fé inaugurada por ele.

Bem, a verdade é que esta coluna me deixou extremamente desapontada. E furiosa também: pretensão e preconceito travestidos de conhecimento ainda me surpreendem bastante.

Explico-me, como sempre – mas antes de explicar-me, reafirmo que, pessoalmente, não possuo absolutamente nada contra nenhum tipo de fé, seita ou religião (para evitar mal-entendidos). Desde, é claro, que a mesma defenda princípios fundamentais baseados no amor e respeito ao próximo – princípios estes que tornam a convivência social possível. Sendo assim, nem judeus, nem praticantes do umbanda ou do candomblé, nem muçulmanos ou quaisquer outros pertencentes às centenas de expressões de fé existentes e compreendidas no mundo, ou mais especificamente, dentro do território brasileiro, serão alvo de meu desrespeito ou preconceito.

Nem mesmo, no que depender de mim, terão de contemplar imagens que nada lhes dizem, em local de destaque e veneração em repartições públicas – repartições estas que são sustentadas pelos impostos pagos também por eles, não apenas pelos que são cristãos - é sempre conveniente lembrar.

Mas, raciocinemos como o colunista do Correio – apenas usando um princípio cristão, a chamada Regra de Ouro: o de não fazer aos outros o que não queremos nós mesmos sofrer, segundo defendido pelo Cristo. Assim, empaticamente, imaginemos a situação ao contrário: será que o mesmo articulista se sentiria confortável se, ao adentrar um local público – federal ou não – se deparasse com a imagem de Yemanjá ou de qualquer outra divindade cultuada nas inúmeras religiões e seitas existentes em nosso país? Ficaria ele, que se admitiu cristão, ofendido? Ficariam as pessoas que sustentam argumentação semelhante à dele ofendidas? Solicitariam que tal imagem fosse retirada? Reclamariam que este se trata de país cristão e, devido a isto, tal símbolo estaria alocado inapropriadamente?

Você, cristão, poderia, realmente, responder não às perguntas anteriores?

Desta forma, não estariam estas pessoas, ao afirmar que os símbolos da fé cristã devem continuar expostos, defendendo que pessoas de crenças diferentes não devem se ofender com uma situação que ofenderia a eles, cristãos? E o princípio da empatia na Regra de Ouro mencionada por Jesus? Vale apenas quando aplicada a nós e não aos outros?

Ora, pois o que me pergunto é se aqueles que argumentam contra a retirada de tais símbolos esquecem-se de que, se por um lado, o Brasil não é um país ateu – já que a maioria de seus habitantes possui pelo menos uma fé religiosa – não é também país de uma única fé, já que abriga crenças que vão desde as cristãs, passando pelas religiões de origem africana, muçulmana, judaica além das várias filosofias como o budismo, confucionismo e etc.

Ainda, quando digo “pelo menos uma fé religiosa”, há outra interpretação plausível, já que há aqueles que, à moda do Brasil – que é o país da mestiçagem - rezam na missa aos Domingos, estudam com os kardecistas às quartas e batem tambor às sextas-feiras crendo tanto no poder de Jesus quanto no de Oxalá ou dos espíritos iluminados - com a mesma intensidade.

E mais, mesmo entre os que defendem a fé cristã, há aqueles que negam veementemente o uso de qualquer imagem que represente o divino, como as Testemunhas de Jeová, já que esta é uma proibição expressa em trechos da Bíblia cristã que se repetem tanto no antigo, quanto no novo testamento.

O fato de que há uma imensidão de crenças, religiões e seitas em nosso território - além, é óbvio, daqueles que se professam ateus - e que os cidadãos que professam tais crenças têm que ser vistos com igual respeito pelo Estado escapa a todos os que defendem que a simbologia religiosa é bem-vinda em locais mantidos – já que são os cidadãos que pagam impostos – e freqüentados por pessoas que não compartilham das mesmas crenças.

Desta forma, uma opção, por questão de justiça é: se se defender que um ou outro símbolo de fé é bem-vindo, deve-se decidir que todos são – sem deixar nem mesmo o espaço reservado para aqueles que não possuem fé alguma. Imagine-se a babel de simbologias expostas que isto não geraria.

A outra opção é a proposta inteligentemente defendida pelos procuradores de São Paulo e que, certamente, soa menos confusa e exagerada do que a mencionada no parágrafo anterior: retirem-se os símbolos dos locais que pertencem a todos – já que é isto o que a palavra público quer dizer – e deixe-se a devoção para a casa dos indivíduos e que lá, cada qual mantenha seus locais de adoração da forma como achar apropriado. E que, possam estes professar sua fé e praticá-la, sendo todos eles respeitados de maneira igual pela nação.

Tal decisão não tornaria o Estado Ateu – sem Deus. Apenas reconheceria que a liberdade religiosa defendida pelo Estado Laico, neutro em questões religiosas, significa respeitar a decisão de cada indivíduo de servir àqueles deuses que considera merecedores de sua fé, e não privilegiar esta ou aquela divindade em locais públicos – já que os brasileiros não são 100% católicos, ou protestantes, ou judeus, ou ateus, ou o que quer que seja em termos de religião.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Denin and Leather: sobre a origem do Heavy metal

O título deste artigo – jeans e couro – extraído de uma música da banda Saxon em conjunto com o título deste marcador (Heavy Metal: Pedras que continuam a rolar) exemplificam bem o espírito que será cultivado ao longo destes parágrafos e de outros por vir: o estilo de música que, para muitos, tornou-se também um estilo de vida: o rock ‘n’ roll e uma de suas vertentes mais famosas, o heavy metal.

Na árvore genealógica musical, o heavy metal é um dos descendentes do rock, que por sua vez, surgiu da mistura do country, blues, jazz, folk e gospel entre os anos 40 e 50 do século passado.

Tradicionalmente, consideram-se as bandas Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple como as progenitoras do metal. Se se observarem os músicos que compuseram estes mencionados grupos assim como suas influências musicais, ver-se-á de que maneira marcante o blues, em especial, influenciou grandemente o nascimento do metal. Exemplifica-se: Jimmi Page, guitarrista do Led veio da banda Yardbirds, onde dividia a guitarra com Eric Clapton – considerado um dos expoentes do blues da época. Tony Iommi antes de juntar-se à banda Earth, que posteriormente mudaria seu nome para Black Sabbath, tocou em várias bandas com raízes fincadas no blues. É deste estilo musical que o heavy metal herdou suas guitarras fortes com solos longos. No Deep Purple, quando se considera sua formação de maior sucesso, os solos de guitarra de Ritchie Blackmore trabalham em conjunto com solos de teclado executados por Jon Lord – este tipo de duo tornou-se menos popular até os anos de 1990/2000 quando ressurgiu com o sucesso de bandas como Stratovarius.

O próprio Clapton, apesar de não gozar do mesmo renome entre os fãs de metal com o seu Cream – algo imperdoável, do meu ponto de vista - forneceu um dos degraus que conduziu ao que se convencionou chamar metal.

Já o estilo de vocal - na verdade, estilos, uma vez que há muitas maneiras de cantar metal – é bem exemplificado pelos vocalistas do Power Trio de bandas que solidificou o heavy: Robert Plant, vocalista do Zeppelin, vai do suave, passando pelo sensual até os gritos como se pode observar em músicas como What is and what should never be, The Lemon Song e Communication Breakdown. Os vocalistas do Sabbath e do Purple, excetuando-se Ozzy Osbourne, são reconhecidos pelas vozes poderosas, não raro agudas – como é o caso de Ronnie James Dio, que popularizou o sinal dos chifrinhos feitos com os dedos, e Glenn Hughes. Ozzy, já exemplifica a questão do desempenho no palco, onde ele possui forte presença.

Mais recentemente, com as subdivisões do metal, esta amplitude das maneiras de cantar tornou-se ainda maior para incluir os guturais de estilos mais extremos como o death.

A “cozinha” das bandas de metal – bateria e baixo – é característica. Este duo não apenas marca o ritmo, mas é importante na composição sonora sendo, muitas vezes, a bateria chamada de coração da banda e o baixo o responsável pelo peso do som enquanto o guitarrista viaja em solos agudos. Diferentemente do que acontece em outros estilos, estes instrumentos não são meros coadjuvantes: basta lembrar as baterias de John Bonham e Bill Ward, respectivamente Zeppelin e Sabbath, e dos baixos de Geezer Butler e Cliff Burton, respectivamente Sabbath e Metallica.
Mas de onde veio o nome heavy metal (metal pesado, em português)? Assim como o nome rock ‘n’ roll, há controvérsias quanto à sua origem. Ian Christe, um historiador dedicado ao metal, afirma que, devido às suas origens entrelaçadas com o movimento hippie, pode-se supor que o nome advenha do sentido que as palavras heavy e metal possuíam na gíria deste grupo social específico: heavy sendo profundo; metal, por sua vez, referindo-se ao mau-humor, quando, por exemplo, rangem-se os dentes de raiva. Assim, segundo Christe, juntando-se os dois sentidos têm-se uma hipótese plausível para o surgimento do nome que descreve esta música, muitas vezes “raivosa”.

Falando em raiva, a temática do heavy, muitas vezes justifica este seu rótulo – o de mau: não é incomum que se discutam temas como problemas sócio-políticos, o ocultismo, o desconhecido e a insatisfação social, como teremos a oportunidade de discutir em colunas futuras.

Na chamada Nova Onda do Metal Britânico (New Wave of British Heavy Metal) bandas como Judas Priest e Iron Maiden retiraram do metal as características restantes de referência direta ao blues. O Judas Priest ainda contribuiu para o estilo de roupas dos headbangers, popularmente chamados de metaleiros: o uso do couro, coturnos e de correntes que vieram juntar-se ao já consagrados denim (jeans) e às camisas pretas, não raro estampadas com logos ou fotos com referências às bandas admiradas pelo usuário.

Para os adeptos do metal e do rock ‘n’ roll, a exposição dos nomes e/ou logos e fotos de suas bandas prediletas são feitas com o orgulho daqueles que admiram e, de fato, pesquisam as bandas admiradas e sua produção musical sendo os bangers parte dos que, mesmo em tempos de pirataria irrestrita, ainda compram CDs e DVDs originais no intuito de ajudar no suporte às bandas.

Para os pacíficos metalheads ou bangers, só há um grupo capaz de lhes provocar aquele olhar gelado, prenúncio do isolamento do grupo – os “posers”, aqueles que ostentam roupas iguais às deles, mas que não entendem de música. Sendo assim, chamar ou referir alguém ou alguma banda como “poser” é um dos maiores xingamentos que um verdadeiro banger é capaz de enunciar.

Por outro lado, o maior elogio dos bangers é a batida de cabeça, com a projeção dos cabelos, quando longos, para frente. É realmente uma louvação que acontece quando o som agrada aos ouvidos e fala com a alma desta galerinha exigente.

O Brasil também tem seus representantes fiéis ao rock e ao metal: temos bandas como Overdose, Casa das Máquinas, Azul Limão, Dorsal Atlântica, Baranga, Patrulha do Espaço, Chakal – só para falar de algumas.

Desta forma, finalizando as considerações de hoje, deixo claro que aqui discutiremos música - boa música, que inclui o rock ‘n’ roll e o heavy metal. Mas também vamos falar do estilo de vida dos seguidores desta expressão musical iniciada pelo Sabbath, Zeppelin e Purple e honrosamente continuado por bandas como Iron Maiden, UFO, Judas Priest e Blind Guardian.

Agora, um conselho: se você gosta de boa música e tem aquele preconceito contra o rock e o metal – não escute-os jamais: você pode ser irremediavelmente contagiado!

No mais, é só ligar o som e curtir no volume máximo.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Crônica: Meu sapato 37

Hoje assisti a um filme, Piaf, que retrata a vida de um dos maiores nomes da música francesa. A título de comparação, Edith Piaf está para a França como Roberto Carlos está para o Brasil e Frank Sinatra para os Estados Unidos: aquele tipo de cantor ou artista que, mesmo que você não goste, costuma manter um silêncio respeitoso devido ao impacto que eles tiveram e ainda têm sobre os outros.

É um filme que me comoveu e me fez relembrar outras pessoas, outros artistas: Maísa, Michael Jackson, Cazuza, Edgar Allan Poe, Oscar Wilde, Raul Seixas, Marilyn Monroe além de outros nomes que fariam sentido apenas para mim... pessoas que conquistaram, em medidas diferentes, respeito artístico e/ou profissional, ou dinheiro, ou respaldo da população e uma legião de fãs ou todos os anteriores. Se vivos, arrastam-se levianamente em suas meias-vidinhas de mortos-vivos. Se mortos, ainda vivem em seus filhos, canções, livros, filmes - em sua obra.

Estes que mencionei possuem um ponto em comum: a infelicidade. A falta de afinidade com o ser-feliz – não aquele estado passageiro que se manifesta vez por outra quando assistimos a uma comédia ou ouvimos uma piada. Ou quando se enche a cara ou droga-se passando a ver cores inexistentes – já que o efeito dos químicos é fugaz e depende de fontes externas, assim como o riso proveniente de películas ou anedotas.

A felicidade a que me refiro é a irmã perene da alegria e que com ela anda de mãos unidas. Aquele sentimento, cuja única fonte é interior, que faz com que você consiga ver a beleza; ou que sorria com e para as coisas mais inusitadas. Um estado de graça que pode ser acessado como um paliativo para a dureza da vida. Que pode surgir ao acessarem-se memórias ou aquele refúgio que todos preservam dentro de si e simboliza o conceito individual de felicidade – cada qual a sua maneira.

Para tornar este texto mais claro, falarei de minhas definições pessoais para estas palavras que serão recorrentes aqui: felicidade e alegria.

Felicidade, para mim, contrapõe-se à depressão (que neste texto, não se refere à patologia, mas antes à forma como se encara a vida e o mundo). Assim como a depressão, a felicidade é um estado constante, porém, de contentamento.

Este estado independe do exterior, apesar de que determinadas circunstâncias como saúde e satisfação física ajudarem em muito em sua manutenção.

Felicidade é a capacidade de se refugiar em si e sentir-se bem com o que se encontra na alma. Felicidade é magma: aquele derretido eterno de substâncias que queima, sem grandes profusões, no centro da terra e que sustenta todo o exterior. As explosões deste magma constituem a alegria, que é o oposto da tristeza. Algo como a lava incontrolável sendo expelida de um vulcão. Assim como o fogo de artifício e o estouro vulcânico, a alegria tem tempo limitado e, geralmente, manifesta-se quando estimulada pelo exterior. Já a felicidade, como o magma, queima silenciosamente mantendo a alma aquecida.

Assim, pode-se estar alegre, ou ser alguém alegre sem se ser realmente feliz. Ou pode-se estar triste, devido a alguma dificuldade trazida pela vida, e ainda assim ser-se feliz.

O fato é que a vida de pessoas bem-sucedidas e dos artistas famosos e infelizes sempre me intrigou, independente de eles serem ou não de minhas relações ou de agradarem ou não ao meu paladar. Sempre me fizeram perguntar por que pessoas que possuem o que é desejado pela vasta maioria dos viventes-pensantes não são felizes. O que elas desejariam? O que lhes faltaria?

Penso nisto novamente aqui na minha sala, ainda digerindo a vida de Piaf, enquanto ouço música linda interpretada por Renato Teixeira. “Ando devagar porque já tive pressa/ levo este sorriso porque já chorei demais”...

Engraçado como “certas canções que ouço calam tão dentro de mim/ que perguntar carece/ como não fui eu que fiz”, segundo cantaria Bituca. É assim que me sinto quando escuto esta linda música interpretada por Teixeira.

E ela me faz, novamente, retomar as vidas dos infelizes, que, aparentemente, não possuem motivos para sê-lo. Quando leio livros dos autores que mencionei no início ou quando converso com estes seres infelizes ou quando vejo filmes de James Dean ou Monroe, ou quando escuto algumas músicas dos compositores ou intérpretes que mencionei no início – sim, eu escuto Edith Piaf e não desprezo os Jackson Five (por mais inusitado que isto possa parecer) é-me impossível não perceber certas coisas.

Por exemplo, ver oculto atrás do sorriso sensual de Marilyn a Norma Jean infeliz que morreu depois de overdose de remédios e que amava homens impossíveis enquanto desprezava ou mal-tratava aqueles que, de fato, a amavam. A questão de a super-dosagem que a levou a morte ter sido intencional ou não é o que menos importa para o que discutimos aqui. O simples fato de que ela precisasse destas doses, assim como Edith, Jackson, Seixas, Poe e tantos outros, para suportar as dores de suas vidas é o que me intriga e denuncia a infelicidade – a incapacidade de atingir seu refúgio interior sem o auxílio de químicos (legais ou ilegais, sob prescrição médica ou não, pouco importa, se estão sendo usados para substituir algo que deveria existir naturalmente).

Senti o mesmo “encabulamento” ao ver vídeos caseiros de Jackson brincando com os filhos em casa e comparando aquelas risadas com sua dor pública tão exposta e comentada em todo o mundo. Em se tratando de Piaf também, não se exige esforço para que se enxerguem suas dores, já que seu coração ficava em sua garganta, mais precisamente em suas cordas vocais.

Poe falou excelentemente das sombras que também me habitam – já que habitam em todos nós. Já Raul ajudou a deixar tudo mais claro em Sapato 36, quando falou do sentimento de não-pertencer, não-caber, do sentir-se apertado no espaço que lhe é reservado – não importa o tamanho que este tenha.

E a música cantada por Teixeira? Que tem ela a ver com isto tudo? Bem, de ínício, já afirmo que ela realmente mexe comigo por remeter à época em que eu morava com meus pais em BH. Eles, especialmente meu pai, sempre gostaram de canções regionais e me habituei à forma como soam alguns cantores ou como choram suas violas e como falam certas verdades suas poesias.

Se eu pudesse, de fato teria enviado a cada um daqueles que citei no início, esta beleza em forma de verso suavemente cantada por Renato. Há um trecho em que ela diz que cada um de nós “carrega o dom de ser (...) feliz”. Isto é exatamente o que este tipo de pessoa carece de saber – a letra diz uma verdade. Expressa a maneira como me sinto e a filosofia que gostaria de poder sustentar: o que leva a felicidade é inerente ao ser humano.

Antes que algum de meus velhos conhecidos pense que enlouqueci por estar citando músicos como Renato Teixeira e Milton Nascimento (também apelidado de Bituca), posso dizer que estou em meu juízo perfeito – o que não quer dizer muito, eu sei - e nem coloquei fogo nos meus discos de Metal. Até mesmo na minha seleção de hoje entre uma música regional e outra, estou também ouvindo Dio, quando ainda no Rainbow, além de umas bem velhinhas do Sabbath e do Iron Maiden.

É, hoje é dia de saudosismo. Só velharia.

Mas é que vidas tristes de pessoas que parecem não ter encontrado a felicidade, mesmo tendo procurado por ela, me entristecem. Muito.

E quando estou triste recorro às minhas velharias. Elas me ajudam a acessar o meu refúgio interior.

Quanto às pessoas tristes, elas parecem ter saudade de algo não vivido, buscar um não-sei-o-quê muito difícil de encontrar.

Julgo angustiante que a felicidade tão falada e cantada ande se ocultando de gente por aí, que se cerca de tristeza, frustração, leviandade impedindo àqueles que as cercam – sejam amigos ou familiares - de encontrarem-na também.

Mas, pergunto: o que é necessário para que se seja feliz?

Dinheiro? Fama? Fé? Deus? Filosofia?

É preciso crer em algo ou em nada? É preciso ter família ou não tê-la? Amigos ou inimigos? Filhos? É preciso estar só ou acompanhado? Ter amor ou viver consigo mesmo? Distanciamento ou aproximação? Música ou silêncio? Trabalho ou ócio?

Tristemente, a resposta me escapa.

Cada uma das opções anteriores possui suas próprias vantagens e desvantagens e até onde posso perceber, as respostas podem variar de indivíduo para indivíduo.

É a única verdade que posso oferecer.

O certo é que prefiro crer no que cantou Teixeira: cada um carrega em si “o dom de ser capaz e ser feliz”.

Sendo assim, só espero encontrar minhas próprias respostas, meu próprio sapato 37, sentadinha ao lado da cachoeira que banha meu esconderijo secreto tomando suco de laranja, antes de ir para o lugar onde estão todos os meus heróis, mortos ou não de overdose.
 
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